Monday, June 26, 2017

Antúrios



Quando o telefone silenciou
olhei em volta,
olhei para dentro
e vi o tamanho do caos.


Contabilizei
uma Hiroshima, duas Nagazakis
um  Columbine e três tsunamis
que chegaram varrendo tudo.


Duas fukushimas e um Chernobyl desabrocharam
no vaso de anturios;
nasceram trifoliums repens
entre os azulejos
e uvas com gosto amargo de lima
se espalharam pelos quartos.


Desde então, ficou este
coração radiotivo e burocrático
com cercas eletrificadas muito altas
e um hálito de tango brotando do chão.

Ontem, nasceram rosas de arame farpado,
 lírios de césio e mercúrio,
acácias que não disseram nada
e a visão de um sorriso de Marlene Dietrich.

Quando o telefone silenciou,
olhei em volta
olhei para dentro
e somente o seu perfume
persistiu.



(29 de julho de 2016)

Sunday, April 30, 2017

Pequeno mapa do medo



(Para Antonio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes)


A ansiedade é a véspera do medo.
E o medo é um homem-bomba que vive dentro de nós.
Quando não domesticado, o medo pode se transformar em uma grave doença, péssima companhia que nos influencia e transtorna, e que nos leva a viver um lugar árido e frio, uma espécie de cidade pavimentada pela tristeza.
Sou defensor da tese de que em doses homeopáticas o medo pode até  jogar a nosso favor.
Ele pode demarcar limites benéficos e nos dar uma sensação – nem sempre verdadeira - de segurança.
Na infância eu tive um amiguinho que tinha medo de borboletas. Foi o primeiro caso de motefobia de que tive notícia.
A borboleta que enfeitava a primavera e que pousou em flores o aterrorizava. Vista por seus olhos microscópicos ela era um monstro horrendo e que só ele via.
Ele percebeu, ali, que de perto ninguém é perfeito. Ninguém é tão bonito. Ninguém.
Naqueles mesmos dias passariam por mim a mula-sem-cabeça e o lobisomem. E eu sobrevivi.
E eu ainda temia o caboclinho d’água, uma lenda do rio que corria pela minha infância.
Por isto nunca pescava sozinho.
Veio daí essa tendência gregária - já adulto-, esse hábito de só andar em bando.
A vida tem tantos outros medos, constataria, à medida que molhava os pés em suas águas.
Mais medos do que certezas, concluiria.
Medo da cuca, que vem pegar.
Medo de andar de avião.
Medo de andar.
Medo de lugares fechados.
Medo de o elevador despencar.
Medo de dirigir um automóvel.
Medo de entrar na multidão.
Medo do escuro, da chuva, do relâmpago e do trovão.
Medo da violência urbana, de parar no sinal de trânsito e ver aproximar aquele motoqueiro com um garupa.
Medo de seguir em frente.
Medo do pivete, do sequestrador-relâmpago e das polícias.
Medo das milícias.
Estereotipamos, já perceberam? É o medo nos manipulando.
Temos medo de qualquer um. Às vezes temos medo de nós próprios.
Medo. Muito medo.
Medo de cair para a segunda divisão.
Medo de cair e não levantar.
Medo da mão pesada de Deus.
O tal temor a Ele, anunciado nas escrituras.
Medo de morrer e ir para o inferno.
Da chapa quente do inferno, do chifrudo de olhos vermelhos e seu tridente pontiagudo.
Estereotipamos.
Medo do fracasso.
Medo de broxar.
Medo de arriscar, mesmo sabendo que quem não arrisca, não petisca.
Medo da libertação.
Medo da autonomia.
Ablutofobia, Acrofobia, Belonefobia, Bienofobia, Claustrofobia, Lalofobia, Lactofobia, Motefobia, Nasofobia, Queimofobia, Tafefobia e Xenofobia.
Tudo é medo, medo, medo, como cantou o cearense Belchior, em Pequeno Mapa do Tempo.
E existem muitos outros, comprova a ciência.
O pior de todos, no entanto, é o medo de ser feliz.
Posso garantir e passar recibo, meus amigos, que não existe medo pior.



.
* Pequeno Mapa do Medo é o nome de meu próximo livro e será dedicado à memória de Belchior e a José e Ana, dois amigos de Minas Gerais.

Monday, April 17, 2017

Porque eu também sou mãe


Eu entendo a sua dor porque também sou mãe. 
Assim como você, eu sou aquela que esperou com ansiedade a chegada deste filho que encheu a casa de felicidade quando nasceu.
Se ele foi o primeiro, se foi o único, pouco importa.
Para uma mãe todos os filhos são únicos, todos são o primeiro, todos são iguais no amor que ela sente desde o momento em que nasce.
Uma mãe começa a amar o filho antes mesmo de sua chegada, naquilo que o guarda dentro da barriga e por ele espera.
E eu o guardei e desejei que nada lhe faltasse, que nada (nunca!) lhe doesse, que nada lhe afligisse desde que respirou fora de mim pela primeira vez.
E eu o amamentei até que ele não precisasse mais do meu leite.
Estive com ele nas noites de febre, trocava suas fraldas, saciava fome e sede e o acompanhei enquanto ele crescia.
Caía a noite e eu ficava olhando para aquele menino bonito, a face inocente descansando de nadas, e desejando que ele tivesse um sono tranquilo, cheio de sonhos leves.
Eu implorava para que ventos ligeiros levassem para longe dali os eventuais pesadelos.
Vi quando ele deu os primeiros passos e quando perdeu o primeiro dentinho.
Ainda guardo na memória cada pedacinho dele, a imagem no porta-retratos, o sorriso ingênuo, o olhar de ave, o cabelinho de nuvem.
Eu estive sempre com o meu menino.  (E gostaria de ter estado mais, mesmo depois que ele cresceu.)
Eu quis para ele futuros brilhantes, tão maiores e melhores que o meu.
Quis que ele salvasse vidas como um médico, que educasse o mundo como um professor, que fosse piloto de avião, artista ou atleta profissional.
Que ele fosse o que escolhesse ser. Acima de tudo, que ele fosse feliz.
Portanto, eu sou aquela que não sabe onde errou e que preferia que tudo fosse de outra maneira.
Eu sou a mãe daquele menino que se tornou rapaz e se perdeu de mim.
Aquele menino que foi adotado pelo crime e que hoje chama a violência de senhora.
E é por isto que entendo a sua dor de mãe, que teve a trajetória do seu filho interrompida pelo meu.
Sou a mãe do pivete que lhe assalta fumado de crack e que coloca a sua história de cidadão a um clique de revólver, a sua vida por um triz.
Sou a mãe do homem-bomba que entra num mercado e leva dezenas de inocentes com ele, sabe lá Alá para onde.
Sou a mãe do sequestrador que lhe priva dos seus, daquele que pede resgate e que talvez nem devolva o que não lhe pertence, o que nunca lhe pertenceu.
Eu sou a mãe de Mark Chapman, aquele jovem que matou John Lennon e roubou do mundo a luminosidade de novas canções.
Apareço como genitora na certidão de nascimento de Charles Manson.
Osama Bin Laden me chama de mãe.
Meu DNA está em Hitler, em Franco, em Gaddafi e Sadam Hussein.
Está nos policiais dos grupos de extermínio da Baixada Fluminense e nos estropiados do Talibã.
Está nas artérias de George Bush, nos cabelos de Manuel Noriega e na arcada dentária de outro tirano qualquer.
Meu filho é aquele que entra no cinema vestido de Batman e abre fogo contra inocentes, filhos de outras mulheres como você.
Eu sou a mãe de todos estes meninos enlouquecidos que se armam até os dentes e promovem carnificinas nos Colombines e Realengos desta vida.
Portanto, pode chorar nos meus ombros que eu entendo a sua dor, minha senhora. Entendo, porque também sou mãe.
E porque toda vez que um filho meu mata o seu, eu morro um pouquinho junto com os dois.


* Foto de Osama Bin Laden na infância.

Thursday, March 30, 2017

Pequenas memórias


Eu, que hoje entendo muito pouco de quase nada, naquele tempo entendia menos ainda.
Usava calças-curtas e cantava o hino nacional na escola, todos os dias, antes do começo das aulas.
Eu era um menino católico – como quase todos os outros – que emprestava a voz a um Padre Nosso capenga.
Não, eu não sabia melhor. Eu não sabia.
Como um mestre-sala mirim, desfilava com uma legião de soldadinhos de carne e osso ao som de marchas militares. Era sete de setembro, feriado nacional.
Às vezes um tanque de guerra abria o caminho, e aquilo era imponente e intimidador.
No palanque, sorriam homens com estrelas nos ombros, roupas engomadas e sapatos lustrosos.
No rádio de ondas curtas, Dom e Ravel cantavam que aquele era o lugar dos patriotas, dos amantes do país.

“Eu te amo meu Brasil, eu te amo
Meu coração é verde, amarelo, branco e azul anil
eu te amo, meu Brasil, eu te amo
ninguém segura a juventude do Brasil”.

A infância fedia, inocente.
Meninos e meninas não tinham consciência do que se passava. No interior do interior do Brasil, éramos pequenos demais para tomar conhecimento de que os descontentes desapareciam em úmidos porões.
Eu não sabia que o País do Futuro, naquele presente, não passava de mais uma republiqueta das bananas da América Latina.
Eu era um passarinho engaiolado e não o sentia. Faço parte da geração que foi uma das mais sacrificadas desde que Pero Vaz de Caminha escreveu uma carta ao rei de Portugal.
Formamos a geração perdida, a que descobriu o caminho da emigração e despachou brasileirinhos e brasileirinhas para os quatro cantos do mundo.
Estamos instalados entre os aborígenes da Austrália, os malditos chicanos e os brasiguaios de algum lugar tão miserável quanto o nosso.
Somos os subalternos, os estafetas, os contínuos.
Somos os decasseguis, os brasucas, os expatriados.
Somos aqueles que batem continência, os que abrem as portas dos carros e dos hotéis; os que guardam o veículo e a casa alheia; os que se conformam com a sorte menor.
Somos os que lavam os pratos; os que limpam o chão.
Somos os que higienizam os cadáveres nos necrotérios no Harlem e no Bronx.
Os que passeiam os cães das madames no Hyde Park.
Os que servem à mesa nos bistrôs de Saint Germain.
Os que cozinham.
Os que ralam.
Exceções?
É claro que as há, como em toda regra criada pelo homem-lobo-do-homem.
Mas não somos páreo para os de antes, nem para os de depois da década de 1960.
Nós somos os de durante.
Somos os zés e marias-ninguém deste gigante fincado nas Américas.
No grande esquema das coisas, somos os ‘desinfluentes’, quase sempre fedendo a suor e picotando o cartão de ponto em algum lugar do mundo.

Sunday, March 26, 2017

Desassossego na bagagem



(Para Jorge Pimenta, que rabisca fotografias com seu olho lírico)


O que trarei na bagagem desta minha viagem?
Trarei as luzes derramadas sobre a ribeira?
Trarei a ribeira do D’Ouro e suas águas a um passo da foz?
Trarei barcos carregado de pipas? 
Uma janela da torre dos Clérigos e a proteção do anjo apinhado de pombas no topo do hospital Santo Antônio?
Trarei uma lua cheia? 
Trarei estrelas nortenhas? 
Azulejos?
Trarei as vielas estreitas desta cidade, como aquelas transportadas em nuvens para as vilas portuguesas da Minas Gerais colonial?
Sim, porque existe muito do lugar de onde venho neste lugar que visito pela primeira vez.
Existe um bairrismo, um orgulho ingênuo, um sotaque distinto e uma quase doçura na voz.
Existem ladeiras que sobem e descem, mercados permeados por um burburinho e vozerio que ecoam de dentro dos cafés e tascas espalhados por todos os cantos, dentro de mim.
É manhã na cidade do Porto e, no que chego, chove turvando a visão diante de uma paisagem que nunca vi.
Lanço o olhar-turista sobre pessoas e coisas com a sede dos que tem sede, com a fome dos que tem fome.
Chego e sou bem acolhido já à entrada, sentindo-me imediatamente em casa.
Eu, que caminho por essas ruas como se fossem minhas.
Eu, que sou afeito a intuir e a intuir somente.
Eu, que só sei sentir, intuo que trarei desta cidade, quando retornar ao lugar que chamo casa, as cenas épicas dos painéis da estação de São Bento.
Trarei a conversa intimista do motorista do táxi.
Trarei tripas à moda do Porto, alheiras de Mirandela, tremoços e sarabulhos.
Trarei romãs e dióspiros.
Trarei o gosto picante do molho da francesinha degustada numa transversal da rua onde as putas fazem ponto quando a noite cai sobre a cidade.
Trarei poemas de Eugénio de Andrade e textos de Valter Hugo Mãe.
Trarei um solo da guitarra de Rui Veloso e uma pedaço de toucinho do céu, fatiado das páginas do menu do Dom Tonho.
Trarei os muros e paredes pichados, espirrados da fúria de um povo que não se dobra ou aceita as injustiças que ainda persistem.
Trarei o doce-azedo das uvas que espremeram para fazer o vinho que embriagou e irmanou todos nós, durante a estada.
O calor dos abraços que entreguei e recebi, mais que em dobro.
Trarei na mala o luto das mulheres que trafegam pelas ruas, como se ainda vivêssemos num século distante.
Trarei um olhar de adeus diante do mar.
Trarei tradição.
Trarei o peso da história e um pedaço dela, impregnado, essa tatuagem nas retinas.
Trarei uma travessia à pé da ponte Dom Luís I.
Trarei as canções de um concerto que reverbera, ainda, como se estivessem frescas como as laranjas dos pomares que adornam o norte de Portugal.
Trarei um livro retirado do acervo da livraria Lello, que é uma espécie de relicário das palavras, um dos lugares mais bonitos que meus olhos já viram.
E farei o caminho de volta como quem atravessa um abismo.
Porque o oceano Atlântico é um abismo que separa os dois continentes e impede um abraço.
E eu cumprirei duas vezes este percurso numa agonizante jornada.
Nas despedidas, ficará o refrão de um fado.
No coração, o desassossego dos que deixam para trás um pedaço grande da alma.
Ainda assim, ficará a sensação de que levo muito mais do que deixo nesta cidade, neste país.


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Thursday, March 23, 2017

PAPOULAS DE KANDAHAR - Roteiro de lançamento


Roteiro de lançamento do livro
Espero vê-lo nesta minha caminhada 
de divulgação do livro.
Clique na foto para ver a lista de cidades 
que nos receberão durante 2017.
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