Wednesday, May 9, 2018

Mães interioranas




Eu quis escrever um poema homenageando a minha mãe. E não só a minha. A intenção era homenagear todas as mães. Mas o poema acabou não saindo, como não tem saído nenhum outro verso da fábrica inativa que tem sido esse baleado coração.
Dona Marocas, dona Ercília, dona Dózinha, dona Filhinha, dona Lola, dona Esmeralda, dona Niquinha e dona Rute, a minha, eram, todas, maravilhosas. Lembro-me claramente daquelas senhoras em meus primeiros anos em São Raimundo.
Dona Cilinha cantava no coro da igreja.
Dona Marocas – mãe das moças mais bonitas – era sábia, dava conselhos, e não carregava tristezas no olhar.
Dona Ercília ajudava os pobres.
Dona Dozinha estava sempre de mau humor. Seu marido virou garimpeiro e foi viver no Pará.
Dona Lola freqüentava uma igreja crente.
Dona Niquinha cuidava do jardim.
Dona Vilma plantava hortaliças.
Dona Esmeralda chorava às escondidas.
Dona Filhinha mentia compulsivamente.
Dona Socorro fazia biscoitos
Dona Ireni aprendeu a cortar cabelo.
Dona Isaura estudava à noite. De dia vendia laranjas no ponto final do ônibus.
Dona Maria era a melhor amiga de dona Conceição.
Que era esposa de Expedito, que era maquinista de trem.
Dona Laura, de tão elegante, parecia mulher da capital. Quando andava pelas ruas deixava um cheiro de alfazema pelo ar. Estava sempre assim, refrescada, pronta para o calor infernal das tardes de Governador Valadares.
Dona Ana era calada.
Dona Angélica alfabetizava meninos.
Dona Joana criava cabritos. Seu único filho morreu atropelado por um caminhão Scânia Vabis.
Dona Rita organizava a novena.
Dona Juraci cresceu senhora de terras, teve gado, era filha de doutor. Envelheceu pobre e feliz, concubinada com um vaqueiro, ex-empregado de seu pai.
Dona Jandira teve filho prefeito, outro vagabundo e um terceiro meio artista.
Dona Lourdes era viúva. Não teve a mesma sorte de dona Adelaide, que se casou pela segunda vez.
Dona Cássia foi abandonada pelo esposo. Ela, que na juventude quis ser cantora e atriz, teve um filho que fugiu de casa e uma filha meretriz. Mudou-se para São Paulo e dela ninguém mais ouviu falar.
Dona Selma lavava roupas para fora. Assim como dona Auxiliadora e dona Idalina.
Dona Norma conversava com o vento, aprisionava passarinhos e fazia tricô na varanda da casa até escurecer.
Dona Teresa dançava catira.
Dona Ivonete sabia bordar. Suas filhas eram costureiras. Seu marido, alfaiate.
Dona Rute lidava com um garoto meio louco, que queria sobreviver das palavras que bebia do Rio.
Maravilhosas, aquelas mulheres. Lindas, marcantes, cada uma do seu jeito. Como esquecê-las?
Com o avançar da idade elas acabaram virando outra coisa. Se na infância eram nossas heroínas, com o passar dos anos se transformam em santas. E, como tal, merecem que todo filho lhe construa um altar enfeitado com as flores do amor mais puro, recheado de oferendas de profunda gratidão.
Santificadas sejam as nossas mães.
Santifiquemos. 
Santificai!

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Thursday, April 26, 2018

A humanidade cabe numa caixa de papelão


Deve ter passado muito frio, o recém-nascido. 
Deve ter sentido falta da água morna do aquário da barriga de sua mãe. 
Consigo imaginá-lo naquela posição em que ficam os bebês antes de nascer, dormindo de conchinha, inocente, sem imaginar que lá fora existem países em guerra e homens vendendo a alma ao diabo. 
Dormiu, sonhando com anjos tocando harpa e lírios derramando ouro.
Dormiu como se escutasse um minueto e seus olhinhos fechados enxergassem Jesus.
Naquela rua, naquele momento, passaram táxis vazios e ônibus à procura de uma plataforma na estação rodoviária.
Passaram transeuntes apressados buscando trabalho ou descanso.
Circularam junkies sob o efeito de álcool e drogas, transeuntes amedrontados olhando aflitos para a frente como se fugissem da escuridão da noite e seus ardis. 
Por ali passou o medo em passos de ganso. 
Passou a desesperança com a sirene ligada.
Passou uma nação em transe, delirante, ensandecida sob o efeito da ganância e da falência de caráter daqueles que a conduzem.
Transitou um Brasil dormente por ali.
Um Brasil doente, canibal de si mesmo, soprando um samba de Adoniram numa flauta feita a partir de um fêmur.
Passaram ambulâncias carregando doentes e automóveis importados levando novos ricos e playboys desajustados.
Passou uma mulher pedindo esmola, levando ao colo uma menina que não teve a sina de ir parar em outra caixa de papelão.
Passaram por ali a fome, a miséria e a injusta distribuição.
Passou a violência aniquiladora, escancarada no olhar das pessoas.
Passaram 518 anos de uma história cheia de nódoas e metas não atingidas.
Passou um país que não se cumpriu.
O bebê dessa crônica não conhecerá as letras do alfabeto ou um poema de Cora Coralina. 
Não aprenderá a falar ou caminhar. 
Não sentirá a falta de um abraço de mãe ou escutará um conselho de avó.
Não verá os os flamboyants sangrando no coração das primaveras, nem distinguirá o roxo dos ipês do vermelho das rosas no canteiro das praças. 
Não nadará em um riacho, nem sentirá o orvalho da grama molhada sob os pés.
Não testemunhará a mudança das luas ou das estações, nem jogará futebol com outras crianças. 
Mas também não se entristecerá com a classe política brasileira, que aniquila fria e impunemente o futuro de gerações inteiras.
Ele não ouvirá falar de negociatas escusas e nem terá o coração quebrado por algum amor de juventude.
Foi abandonado em um ponto de ônibus, como alguns encaminham indesejadas ninhadas de gatos na esperança de que alguém passe e se encha de compaixão, e dê para essa tragédia urbana um final feliz.  
Ah, menino de Brasília, a visão de seu corpinho tremendo de frio dentro de uma caixa de papelão deveria aguçar o sentimento de culpa e fracasso de toda a humanidade, mas estamos preocupados demais com o vencimento de nossas promissórias e com a escolha do próximo colégio de nossos filhos.
Falhamos!
Você sucumbiu desamparado, desnutrido e sozinho, conhecendo em suas primeiras e derradeiras horas o quanto é bruto o mundo em que habitam os humanos.
E é bem provável que apareça alguém dizendo que 'foi melhor assim'.

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Tuesday, April 17, 2018

Caixa de suspiros


Acordei no meio da noite com vontade de escrever. A inspiração veio, finalmente, após mais de duas décadas de transpiração.Estou fora de casa e as condições não são as de costume. São três horas da manhã em Portugal e o poema pede urgência. O computador portátil está sem bateria e procuro por uma folha de papel – ou qualquer coisa que lembre uma e que me permita registrar o que o coração dita numa pressa sufocante.
Consigo uma caneta e contento-me com a tampa de uma caixa de suspiros, comprados em uma padaria durante a tarde.
Mesmo aliviado pelo nascimento do poema, encontrei imensas dificuldades para dormir.
Do barulho do mar lambendo as areias da Nazaré, o vento esculpindo as falésias, a lembrança das mulheres dos pescadores com as suas sete saias causando assombramentos, tudo me manteve aceso, apesar do corpo prescrito e em petição de miséria.
Quando acordei, refeito, o sol já ia alto, e os turistas haviam engolido as ruas. Fui até a cozinha e dei com a caixa de suspiros rabiscada com garatujos que mais pareciam hieróglifos, objetos de arquelogia inútil.
Eu nunca tive a letra bonita, embora tenha preenchido inúmeros cadernos de caligrafia e tenha tido uma professora que se esforçou bastante para domar a minha mão.
E ‘aquilo’ ali, na tampa da caixa de guloseimas, é inaceitável para um homem que foi alfabetizado e ganha o pão com as notícias que colhe desde o século passado.
Vi, envergonhado, os versos do improvável poema serpenteando do topo até o abismo que se anunciou na parte inferior da caixa branca ainda com cheiro de confeitaria.
Alinhamento zero.
Letras disformes.
Um A que mais se parecia um E.
E um E que parecia outra letra, que não consegui distinguir.
E isto me transportou a um tempo em que as pessoas tinham o costume de escrever. De manuscrever.
Escreviam umas às outras. Escreviam para apaziguar os corações em cadernos de poesia e em diários que exorcizavam as suas almas.
Escreviam ainda para preencher as fichas nas repartições públicas, desenhavam bilhetes com amenidades e mandavam cartas em papéis perfumados, rabiscados com corações de nanquim.
O indivíduo era elogiado pela sua letra e há quem diga que a grafia de punho tem muito a dizer sobre a personalidade do seu dono. Infelizmente, caligrafias bem desenhadas como a de Machado de Assis, trêmulas como a dos apaixonados ou redondinhas como a das das normalistas já não existem mais.
Os computadores e as mensagens eletrônicas roubaram do ser humano um dos seus maiores charmes e reiventaram a função do carteiro, que hoje recebe o seu salário para entregar contas de luz e televisão a cabo, e não mais o afeto envelopado, carimbado e selado com caras de personalidades mortas e maravilhas da flora e fauna do Brasil.
Com a extinção da caligrafia, extinguiram-se também as dedicatórias, outra maravilha relegada pelo homem. Quem, sobrevivente daqueles tempos, nunca recebeu um livro ou disco com uma dedicatória do presenteador?
Recebi muitas, generosas, bordadas na contracapa e nos encartes dos long-plays e nas primeiras páginas dos livros que chegavam nos aniversários e natais.
A tecnologia que tomou conta do mundo extinguiu os discos e, hoje, compra-se música nos I-tunes das gravadoras e das lojas virtuais. Ela, a tecnologia, quer agora acabar com os livros, oferecendo-nos a impessoalidade dos e-books. E isto tira do leitor aquele sentimento de posse, que ele tem ao adquirir uma obra imprssa ou ser presenteado com uma delas. Sem falar do cheiro de um livro novo, que faz cosquinha no nariz e atiça a alma.
Perfume de livro novo só não é melhor que o da pessoa amada.
Tenho pensado muito sobre o assunto e, desde o poema escrito na tampa da caixa de suspiros em Portugal, preveni-me comprando um bloquinho de notas, que está sempre à mão. Se a inspiração voltar a me visitar, prometo lotar o minifúndio de papel com testamentos lavrados de punho próprio, poemas derramados, lembretes, cartas de afeto e o mais absurdo bem querer.


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PS: Caixa de Suspiros é o nome do meu próximo livro (lançamento previsto para o segundo semestre), marcando um retorno à poesia e dedicado a José e Ana, meus musos.

Wednesday, January 24, 2018

Lua-de-mel


Leandro chega esbaforido à casa de Mônica. Vai à geladeira – noivo com sete anos de casa já tem este tipo de liberdade -, pega uma cerveja e dirige-se à amada:

– Mônica, já sei onde passaremos a nossa lua-de-mel.
Mônica corre ao seu encontro, feliz. Há mais de seis meses batem cabeça e não chegam à conclusão alguma.
– Será no Caribe? Você vai reconsiderar Santo Domingo, amor?

Leandro sorve dois goles da bebida, folheia uma revista que está sobre a mesa da cozinha e responde, meio disperso:

– Não, não vai ser Santo Domingo. Nem Cancún, como seu pai havia sugerido.
A moça não se zanga com a negativa e sai dizendo nomes de cidades espalhadas pelo mundo.
Leandro está firme. Caminha até a sala, ajeita-se na poltrona e liga a TV. Mônica não sossega:
– Mas você não vai me dizer? Poxa, é a “nossa”- dá ênfase ao “nossa” – lua-de-mel…
Leandro troca de canal, vira-se para ela e vai eliminando, cidade a cidade, as sugestões apresentadas.
– Lua de mel no Egito? Nem que a vaca tussa. Ali, pertinho da guerra… Sem chance de ver as pirâmides.
Dá outro gole no suco de cevada e continua.
– Amsterdã está fora de cogitação. Seria maravilhoso se estivéssemos na primavera européia, com todas aquelas tulipas colorindo as ruas; Em Barcelona, nem se o Messi ligar para cá convidando… A Espanha está fora da lista, ainda mais que o Neymar debandou… E, no Caribe, é farofa-geral. Me inclui fora dessa…
Mônica tira a última carta da manga do casaco:
– E Paris? Bem que poderíamos ir a Paris. O Neymar foi pra lá.
– De maneira alguma, irrita-se ele. Você já esteve em Paris com seu ex-namorado, lembra?
Visivelmente na defensiva, Mônica senta-se ao seu lado, ensaia um carinho nos cabelos ligeiramente raleados dele, e faz um dengo.
– Ta bom, amor. Esqueça Paris. Onde você sugere, então?

O rapaz se levanta, olha fixamente para os olhos dela e, com a firmeza e o entusiasmo de alguém que acaba de inventar a roda, anuncia:

– Vamos para Nova York, a Big Apple!
Mônica também se levanta. Está visivelmente agitada. Vira-se para o noivo e nem consegue dizer mais nada, além de um pasmo “Nova Yoooork?!”
Leandro parece possuído.
– Eu sei que você argumentará que em Nova York está tão frio quanto Amsterdã, e que após o 11 de Setembro Nova York é tão suscetível a um ataque terrorista quanto Barcelona ou Madri. Mas eu te darei pelo menos cem bons motivos para passarmos lua de mel em Nova York.
Toma mais um gole, todo compenetrado, e abre a voz:

-Imagine que estamos passeando nas românticas charretes que atravessam o Central Park e cruzam as ruas enfumaçadas pelo calor que vem debaixo do metrô… Imagine os museus fantásticos… As maravilhas arquitetônicas, entre elas o Empire State, as pontes, os túneis… Imagina a grande variedade de espetáculos, os musicais da Broadway, os eventos esportivos do Madson Square Garden… As compras nas lojas deslumbrantes da quinta avenida… A diversidade cultural do Chinatown, do Little Italy, com seus restaurantes aconchegantes… A loucura democrática do Village, com seus bares alucinantes, redutos em que punks e yuppies que se misturam…


Mônica puxa o noivo pelo braço e o interrompe:

– E eu te darei um único e definitivo motivo para não passarmos nossa lua de mel em Nova York.
– E que motivo é este?
– Moramos no Bronx, meu amor. No Bronx!!!
   Vira-lhe as costas e vai para o quarto com uma cara zangada.

Wednesday, December 27, 2017

Dois Poemas de Caixa de Suspiros


nagasaki

ficou como Nagasaki
após a grande explosão.

pobre romântico,
restou-lhe um canivete suíço
para reconstruir 
o coração.

***


Metamorfose


Dentro daquela mulher
Constrói-se uma outra
Que pinta de branco 
As asas da garça
Que projeta o voo.


Como se soprasse
A voz do mar
No ouvido das conchas
E fomentasse
A pérola
No coração das ostras,
Ela se ergue
Pedaço a pedaço,
Grão a grão.


Resoluta,
Pulveriza soldados
De chumbo
Nos mapas desenhados
Na toalha de mesa;
Exonera Bispos,
Mastiga dogmas
E derruba todas das torres
Do tabuleiro
De xadrez.


Dentro do seu casulo
De clausura e cetim
Ela tece a borboleta
Que decretará o milagre
Da próxima primavera.

Enfim...


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Wednesday, December 6, 2017

O mel


Vamos falar do mel das coisas boas. De mais encontros e menos despedidas. Mais delírios e menos porradas. Mais afeto e menos truculência.
Vamos falar do mel das palavras bonitas e benfazejas. E esquecer o fel daquelas que envenenam e coalham o sangue.
Vamos tecer alegrias e dissolver o rancor. A hora é agora. Afinal, mágoas passadas não movem moinhos.
Precisamos jogar no ralo da vida as amarguras e tristezas que, às vezes, nos fazem sentir como se tivéssemos pregado Jesus Cristo à cruz.
Esse calvário não é nosso. Essa conta já foi quitada há mais de 2 mil anos.
Para que viver com um pé no presente e o outro no anteontem?
É sabido que o passado é uma roupa velha que não nos serve mais. Então, para que insistir em vesti-lo, se as traças do tempo puíram seu vestido e as costuras do terno não resistiram ao tempo.
Para que mastigar reminiscências que magoam?
Por que ruminar o vidro moído do ressentimento?
Aprendamos.
Reconheçamos a proximidade do perigo.
Precisamos nos desviar dele, sequer olhá-lo nos olhos, ignorá-lo, simplificando o ofício de viver.
Recomeçar do zero, se preciso.
Toda manhã é um convite ao recomeço. Cada nascer do sol traz consigo a possibilidade de se reescrever a história a partir de uma página em branco.
Estejamos atentos. Aprumemo-nos. 
Acertemos nossos passos. 
Desviar do que ficou para trás faz-se necessário.
Enxotemos o fantasma que insiste em voltar quando dormimos, transformando nossas noites em pesadelos. Aprendamos a assustá-lo.
Expulsemos esse verdugo para longe de nós.
Reinventemos as noites, se preciso. O que seria da raça humana sem a capacidade de sonhar?
Sonhemos dias sem tempestade, de céu claro e sol brilhante.
Dias que começam com a grama orvalhada e se encerram com uma lua cheia.
Dias de sorvete de limão para aliviar o calor, de algazarra de crianças brincando e pipa colorida rabiscando o vento.
Dias de música bonita tocando no rádio e notícias boas. 
De abraços sinceros e do calor das verdadeiras amizades. Dia de visita de irmão. Dia de colo de mãe.
Dias de sessão de cinema, de pipoca, de chope com os amigos e conversa leve no bar.
Dia de sonhar acordado com um amanhã melhor que o hoje. Esse hoje, que já foi bom.
Vamos falar de futuro.
De quintais embandeirados. De flores de laranjeira e serenata entre amigos.
Tempo de bibliotecas acolhedoras, camas confortáveis, lençóis perfumados, macios, e travesseiros de penas de ganso.
Tempo de quintal com pomar, horta e canteiros coloridos. Tempo de açucenas, margaridas e girassóis. Sonhemos…
Sonhemos poemas e canções. 
Sonhemos o companheirismo e a amizade. 
Sonhemos com flamboyants sangrando e mangueiras em flor. 
Sonhemos…
Sonhemos a cumplicidade das coisas boas, a gargalhada solta, o afago gratuito e o olhar sincero. 
Sonhemos…
Sonhemos aquela reparadora viagem a Matchu Pitchu, a Paris, a Havana ou para onde a vontade apontar.
Tomemos coragem para fazer as malas e embarcar no primeiro avião.
Deixemos que o vento nos afague o rosto e nos percamos no azul.
É muito provável que neste se perder resida o se encontrar.

Thursday, November 30, 2017

Blues fúnebres


(W.H. Auden)
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Que parem os relógios, cale o telefone,
jogue-se ao cão um osso e que não ladre mais,
que emudeça o piano e que o tambor sancione
a vinda do caixão com seu cortejo atrás.

Que os aviões, gemendo acima em alvoroço,
escrevam contra o céu o anúncio: ele morreu.
Que as pombas guardem luto — um laço no pescoço —
e os guardas usem finas luvas cor-de-breu.

Era meu norte, sul, meu leste, oeste, enquanto
viveu, meus dias úteis, meu fim-de-semana,
meu meio-dia, meia-noite, fala e canto;
quem julgue o amor eterno, como eu fiz, se engana.

É hora de apagar estrelas — são molestas —
guardar a lua, desmontar o sol brilhante,
de despejar o mar, jogar fora as florestas,
pois nada mais há de dar certo doravante.

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(Traduzido pelo poeta e escritor Nelson Ascher e um dos poemas de José e Ana, meus musos de Itaúna)