Monday, October 23, 2017

Menino passarinho



Vivi com o Ronilton Correa por quase cinco anos, quando cheguei aos Estados Unidos. 
Eu não sou fácil. Nunca fui. Mas o coração tranquilo do "Pitico", sua infinita generosidade e capacidade de relevar, propiciou que jamais tenhamos tido um único desentendimento ao longo daquele tempo (e nem depois). 
Nós nos tornamos irmãos, destes que escolhemos na contramão da 'obrigatoriedade' imposta pela genética.
Lembro-me do dia em que alugamos um porão na Hensler Street, um lugar inesquecível e onde eu viveria alguns dos anos mais bonitos de minha vida.
Apesar de termos residido em bairros vizinhos em Governador Valadaes, não nos conhecíamos de lá. Eu era colega de classe do seu irmão Artur, no Ginásio Duque de Caxias, e conhecia Ari, casado com uma de suas irmãs.
Quando decidimos dividir o aluguel, Pitico vivia em um quarto em cima do restaurante Rio Lima, na Madison Street. Marquei de me encontrar com ele após o expediente, que para nós ocorria sempre por volta da meia noite.
Nenhum dos dois possuia carro e tivemos que levar suas trenheiras (roupas, fitas cassetes, uma caixa de sapatos cheia de cartas da família) e pouco mais em sacolas de lixo pela Ferry Street. Quatro sacolas daquelas pretas, para ser exato.
Após despejarmos seus pertences no nosso covil, demos um pulo ao Path Mark e compramos pão, mortadela e fanta laranja. Comemos a nossa primeira refeição sentados no chão, haja vista que não tínhamos sequer um colchão para dormir.
Mobiliamos o porão com móveis encontrados no lixo e ficou super legal. Transformamos aquele lugar escuro e sem vida em um lar, com pôsteres de nossos ídolos nas paredes e onde se escutava muita música brasileira.
O primeiro investimento foi uma radiola, e nela escutávamos os bolachões que comprávamos na Coisa Nossa, a pioneira das lojas de produtos brasileiros em New Jersey.
Dividíamos as incertezas do futuro e nos tínhamos um ao outro. 
Não era fácil ser brasileiro a serviço de portugueses e espanhóis nos restaurantes daquele tempo. Havia contra o brasileiro muito preconceito, um estigma disseminado sabe lá Deus por quem, e tivemos que trabalhar dobrado para desfazer o  rótulo.
Chorávamos nossas dores de amores de juventude não correspondidos no ombro um do outro e sonhávamos em, um dia, irmos ao junto ao Brasil, tão logo nos legalizássemos.
Planejamos ir a shows de MPB em BH, tomar banhos de mar nas águas de Fortaleza, curtir baladas intermináveis onde houvesse balada e beber uma brahma gelada, acompanhada de frango assado, daqueles de televisão de cachorro, no mercado municipal da Governador Valadares. Infelizmente a vida nos levou para lugares diferentes e não chegamos a realizar o sonho comum aos dois, apesar de sempre gravitarmos em torno de Newark.
Vivemos momentos muito especiais e cada pequena vitória pessoal era comemorada pelo outro como uma final de copa do mundo. Tenho muitas estórias para contar daquele tempo, algumas não publicáveis. Mas tem este episódio que relato a seguir, que demonstra bem o tipo de pessoa que era o Pitico.
Rolava no apartamento um cateado nos dias de folga. Jogávamos apostado uma moeda de 25 centavos por cada partida. Naquele dia, Pitico estava com sorte e eu não conseguia tirar as cartas que necessitava para vencer. Jogamos por cerca de seis horas seguidas e ele já havia me limpado em dez dólares. Inconformado, quis recuperar, propondo a ele um tudo ou nada, casando desafiadoramente uma nota de dez.
Pitico deu uma caçoada e aceitou, antes de me aplicar uma nova surra.
Mau perdedor, pedi que apostássemos os vinte ganhados e ele, com pena, topou.
E foi me vencendo, uma vez após a outra, até já ter acumulado 170 dólares, dos 220 semanais que eu ganhava lavando pratos na cozinha do O'Campino.
Fui dormir bêbado e falido. 
Na manhã seguinte, quando acordei ele já tinha saído para o trabalho. Em cima do meu criado-mudo estava um envelope contendo o dinheiro perdido por mim na jogatina da noite anterior e um bilhete contendo uma única palavra:
    "PATO!"
Há dois anos, Pitico descobriu que estava com câncer e lhe foi dado apenas um ano para viver. Ele não se conformou, fez de conta que não era nada com ele.
Desafiou a medicina, continuou respirando, sonhando com futuros bonitos e ainda viveria o dobro do tempo dado pelos médicos.
E viveu como sempre viveu, com intensidade e paixão. 
Viveu para acompanhar um pouco mais a trajetória dos filhos adolescentes.
Viveu para a caminhar um pouco mais ao lado de Márcia.
Viveu para ver e abraçar a primeira neta e se tornar penta-campeão da Copa do Brasil com o Cruzeiro, um dos seus grandes amores.
Viveu com a nobreza de sempre, sem reclamar das dores atrozes e das cruéis impossibilidades, e nos mostrou que a vida é bela e deve ser apreciada e vivida até o último suspiro, ainda que o inevitável fim tenha data marcada.
Na madrugada passada (22 de outubro), Pitico virou passarinho. Ele, que era leve e sempre soube voar.
Vou sentir demais a sua falta, meu menino.
Até um dia, Pitico.
Você continua vivo em mim e nos seus.


* Foto tirada em 1984, na Wilson Avenue, em Newark. Éramos jovens e acreditávamos na imortalidade. 

Saturday, October 21, 2017

Existirá poesia?


Existirá poesia
Em um discurso do papa
Na fumaça de um Marlboro
Em um grito de socorro
ou num corpo largado na esquina?

Existirá poesia
num verso do apocalipse
na escuridão de um eclipse
no voo do homem morcego
No olhar crispado de medo
Ou no quadro da santa ceia?

Existirá  poesia
Na bula da xilocaína,
No rastro da cocaína
No gosto da fanta uva
No cheiro da camomila?

No sangue do conde drácula
Num gole de coca-cola
No menino que cheira cola
No aviso postado na placa
E no som de uma buzina?

Existirá poesia
na lâmina desta navalha?

No baton do colarinho
e no azul turquesa deste mar?

Existirá poesia
ou será tudo prosa e maresia?

Wednesday, October 18, 2017

Sangue novo na crônica



Jorge Sanglard
Jornalista e pesquisador. Escreve em jornais em Portugal e no Brasil

   A crônica é uma das vertentes literárias cultuadas no Brasil por ter sido terreno por onde pontuaram e/ou pontuam nomes como Machado de Assis, José de Alencar, Carlos Drummond de Andrade, Rubem Braga, João do Rio, Nelson Rodrigues, Affonso Romano de Sant’Anna, Paulo Mendes Campos, Fernando Sabino, Otto Lara Resende, Humberto de Campos, Ciro dos Anjos, Sérgio Porto, Rachel de Queiroz, Diná Silveira de Queirós, Henrique Pongetti, Alcântara Machado, Marques Rebelo, Lúcio Cardoso, Lygia Fagundes Telles, Mário Prata, Lêdo Ivo, Moacyr Scliar, Millôr Fernandes, Artur da Távola, Ivan Lessa, Martha Medeiros, Antonio Torres, Ignacio de Loyola Brandão, Luis Fernando Veríssimo, Tatiana Belinky, Marcos Rey, Carlos Heitor Cony, Vinicius de Moraes, Rubem Alves, Alcione Araújo, Maria Rita Kehl, José Castello, Frei Beto, Marcelo Rubens Paiva, João Ubaldo Ribeiro, Jose Roberto Torero, Joaquim Ferreira dos Santos, Xico Sá, Fernanda Takai, Fernando Brant, Eduardo Almeida Reis, entre muitos outros escritores e escritoras.
   Estes são apenas alguns exemplos da versatilidade da crônica brasileira ao longo do tempo, perpassando o século XIX, todo o XX e este início de XXI. Afinal, a crônica tem a ver com o termo gregochrónos, ou tempo, e pode ser entendida como uma escrita que lança mão de aspectos do cotidiano, mas não perde a veia literária.
   Mas não é todo dia que surge um novo cronista ou uma nova cronista na literatura. A tarefa não é das mais fáceis e requer talento e criatividade. Trabalhar literariamente com fatos do dia a dia pode até parecer simples, mas não é tão simples assim. E, ao longo do tempo, a imprensa tem sido um canal para que cronistas se expressem e deixem suas impressões sobre quase tudo e sobre todos. Neste início de século XXI, com a ampliação do alcance das mídias sociais, os blogs tomaram conta do território livre da internet e acabaram sendo uma nova forma de comunicação direta entre cronistas e os leitores. Portanto, é de se esperar que gente nova surja no pedaço e passe a não ser mais difícil de ser encontrada e/ou lida.
  Muito do que se tem lido em jornais ou blogs por aí afora sobre os acontecimentos do dia a dia em diversas partes do mundo é fruto da iniciativa de escritores, pensadores, pesquisadores, filósofos, sociólogos, antropólogos, professores e jornalistas. Os cronistas ou as cronistas da atualidade procuram revelar a sua versão a respeito da insatisfação com a realidade violenta e assustadora que ronda o mundo em muitos setores e procuram ainda mostrar a capacidade de inspirar outros e outras a escrever a sua visão dos fatos que sacodem o cotidiano das cidades seja no Brasil seja nos EUA ou ainda na Europa e/ou na Ásia, África ou no Oriente Médio.
 Assim, quando surge uma nova voz e que se lança ao universo da crônica para escrever sobre questões que incomodam e/ou impulsionam as pessoas, é preciso ficar atento, pois o desafio é grande. Principalmente, quando essa nova voz que faz da crônica seu instrumento de expressão é um jornalista mineiro e brasileiro radicado desde 1984 em Newark, nos Estados Unidos, e que junta seus escritos criados ao longo dos últimos três anos num volume intitulado “Papoulas de Kandahar”. Pois é, Roberto Lima lançou um livro de crônicas cutucando a onça com a vara curta e está percorrendo cidades aqui, ali e acolá com a missão de, ao lançar seus escritos abordando a dualidade da vida, debater fatos do cotidiano, que marcaram e/ou marcam a vida brasileira, norte-americana ou de onde for. É sangue novo na crônica e os leitores daqui ou de lá agradecem.
   A fonte de inspiração para o livro é a dualidade da vida expressa pela papoula, uma flor cultivada principalmente na Ásia e no Oriente Médio, e que produz tanto a resina de que é feita a morfina, um medicamento que ajuda a reduzir a dor extrema e a salvar vidas, como também a heroína, uma potente droga que corrói e destrói vidas, principalmente, na sociedade norte-americana, onde uma onda de consumo de heroína está no centro do debate atualmente em grandes cidades. Essa dualidade permeia as crônicas de Roberto Lima e instiga o leitor a procurar entender aspectos do sonho norte-americano e do pesadelo brasileiro, ou do pesadelo norte-americano e do sonho brasileiro. Essa dualidade depende do ponto de vista. Roberto Lima, como muitos brasileiros que embarcaram para os Estados Unidos já foi lava-pratos, ajudante de cozinha, garçom e servente de pedreiro, até fazer do jornalismo seu meio de vida, ao criar e manter na ativa o Brazilian Voice, um jornal em língua portuguesa que circula entre os imigrantes brasileiros da região polarizada por Newark.                                  
   Roberto Lima já publicou anteriormente outros dois livros em parceria com o poeta e professor universitário Bispo Filho, que é um amigo do peito desde a adolescência vivida em Governador Valadares. Trata-se de “Colosso Ciclone”, um volume de poesia, de 1982, e “Meninos de São Raimundo”, reunindo poesia e prosa, de 2013, além de assinar ainda o livro de poesia “Tango Fantasma”, lançado em 1988. Agora, desde abril de 2017, o escritor está em tour de lançamento de “Papoulas de Kandahar”,  pelos Estados Unidos, Brasil, Portugal, Espanha, Açores, Ilha da Madeira e Japão. E o autor ainda promete para 2018 um novo livro de poesias, intitulado “Caixa de Suspiros”, e outro volume de crônicas, “Pequeno Mapa do Medo”. Como se vê, a dualidade é a marca de Roberto Lima.

Thursday, October 12, 2017

Papoulas de Kandahar: crônicas com sabor de poesia


(Por Wilson Pereira)

Há alguns anos, numa noite de alegria e confraternização, na casa do inesquecível e sempre querido amigo Jorge Ferreira, desses cujo selo da amizade fica para sempre grudado em nossa memória e em nosso coração,  eu conversava com o Ziraldo. Falávamos de livros e de poemas que nos tocam o fundo da sensibilidade. Quando citei algo – não me lembro se um livro ou poema – ele me saiu com essa tirada bem própria do seu humor e de sua sinceridade artística: “hoje eu tenho um critério para gostar de um texto: é sentir inveja”. Captei imediatamente o sentido da palavra “inveja” e vesti a carapuça.
Desde então eu me lembro do Ziraldo muitas vezes. Se eu fosse músico, compositor principalmente, gostaria de ter feito “Tocando em frente”, de Renato Teixeira e Almir Sater. Também gostaria de ter feito “O que é o que é”, de Gonzaguinha. E, ainda, de ter feito quase tudo que o Chico Buarque fez como compositor. Aliás, por falar no Chico, ouvi certa vez uma “sacada” singular em termos de inveja: o sujeito dizia: o Gilberto Gil é genial, o Caetano é outro monstro. Queria ser músico como eles. Agora, o Chico…  O Chico, eu queria era ser ele.
Enfim, o que o Ziraldo quis dizer – e disse, porque para bom entendedor uma vírgula é letra – é que: isso é bom demais, isso me preenche, isso me arrebata, me esfola e me acaricia a alma artística.
Pois bem, quando leio uma crônica de Roberto Lima, sinto essa espécie de inveja: como eu gostaria de escrever crônicas assim.
Roberto Lima está lançando seu primeiro livro de crônicas: Papoulas de Kadanhar.  Livro primoroso,  que nos puxa do fundo de nós para a luz solar dos olhos, pela isca das palavras. Não há como não se emocionar com a leitura de “Aretha Franklin e Deus”, em que o autor, com intervalos de ironia como este “Mas nem só de Aretha Franklin vive o ‘Todo Poderoso’. Quando Ele cansa e cochila no serviço, acontecem Tsunamis, Fukushimas, golpes de Estado, negociatas de corrupção e gols contra no futebol”, discorre sobre a divina cantora e ainda faz ilações filosóficas e líricas, da mais pura e elevada poesia, sobre a existência de Deus.
Roberto Lima, coração aberto e disponível, tem o dom de fazer amigos. Muitas de suas crônicas são um tributo à amizade. São relatos, poéticos e bem humorados, de encontros e episódios com amigos, muitos deles  celebridades, como Gonzaguinha, Raul Seixas, Guarabira, entre outros. Alma sensível e melódica, é com os músicos que tem mais proximidade. Mas também, poeta que é, além de cronista, com livros publicados, tem convivência afetiva com escritores. Exemplo é a crônica “Veríssimos”, em que conta sua aventura embevecida de acompanhar o escritor Luís Fernando Veríssimo em Fort Lauderdale (EUA).
Humor, ironia e poesia percorrem os textos de Papoulas de Kadanhar, do início ao fim. Humor, para citar só duas passagens: “ O homem não aprenderia a sorrir com o rabo, nem se tivesse um”. (“Bom mesmo é ser cachorro”, p. 59). Outra: o final da crônica: “ As muitas vidas de  Gutremberg Guarabira” (pp. 30 a 33)
Ironia (e ainda humor), como na primeira das crônicas acima citadas:
“ Pesquisei na internet e descobri que existe tratamento holístico para depressão canina. Devem ter aprendido com o homem o truque da tristeza.” E essa conclusão (ainda da mesma crônica): “Ao contrário do ser humano, o cachorro parece ser uma raça em franca evolução”.
Poesia é o que não falta em Papoulas. Há muitas metáforas e sutilezas semânticas  incrustadas nas narrativas.
E ainda existe, nas crônicas de Roberto, sem nenhum proselitismo ou filiação idiológico-partidária, um compromisso com o bem: com os direitos humanos, com o respeito pelo outro, com a preservação da natureza, com a necessidade de paz,  com a justiça e, sobretudo, com a crença num mundo melhor.  E tudo isso elaborado e afinado com o mais elevado tom literário.
Roberto Lima dignifica essa espécie literária, consagrada por Rubem Braga e, também, por nomes como Carlos Drummond de de Andade, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos e Otto Lara Resende.
Por fim, penso que Papoulas de kandahar exalam, sobre esses tempos de vergonha política, aromas de bondade e poesia.


*Wilson Pereira é poeta,
cronista, contista, ensaísta e autor de livros para crianças e jovens

Sunday, October 8, 2017

Da solidão dos domingos


(Para Marcos Pizano)


Ontem foi domingo.
Um dia plúmbeo, que nem de longe se deixou transparecer um domingo de verão.
Quase enlouqueci.
Acho que o fato de ter sido véspera de feriado conspirou, transformando as ruas de Kearny em um pavilhão de escombros e abandonos.
Da janela do apartamento, vislumbrei o manto cinza que cobria a tarde, trazendo a reboque a lembrança de muitos outros domingos melancólicos de minha vida.
Sempre vi o dia em que Deus descansou de uma forma morna, ressaqueada, como se algo tivesse se quebrado ou reerguido das cinzas, dentro de mim.
Em muitos domingos, sinto que o mundo vai se esvair em marasmo e melancolia.
Em 1986, aos 23 anos, escrevi um livro de poesias que batizei de “Tango Fantasma”, título de um dos poemas da obra.
O poema falava da solidão de um domingo qualquer, que nascia parido da solidão de outros tantos domingos, e de um sujeito que perdera a esposa e a amante durante um ciclo de sete dias e se exilara num cassino imaginário, fincado às margens do lago de Maracaibo.
Escrevi o poema após retornar de um almoço na casa do poeta Marcos Pizano, ao notar que as ruas de Governador Valadares estavam irremediavelmente desertas.
Tão logo entrei no ônibus que me levaria a São Raimundo, tive  a impressão de que havia entrado num trem fantasma.
Apenas o motorista e o trocador fizeram-me companhia durante toda a viagem, o lotação precário saltando sobre a estrada esburacada.
No alto-falante do teto do ônibus, a voz de Chico Buarque cantava:

“Ó pedaço de mim ó metade arrancada de mim”...

Cheguei em casa aos frangalhos, sentindo o peso de uma barra pesadíssima que aquele domingo implacável havia jogado sobre mim. E nunca mais me curei.
E assim continua sendo, tanto tempo depois, os novos domingos se repetindo com os mesmos contrastes, como se escrevessem com carvão em superfície de pele uma estória triste.
Para mim, o domingo será sempre de Globo Rural, tendo na sequência Rolando Boldrin apresentando modinhas de viola e contando “causos” naquele Som Brasil que ainda reverbera em mim.
Meu domingo terá o imorrível Ayrton Senna com seu macacão limpo, ultrapassando mitos e entrando para a história. Afinal, domingo-fantasma sem Galvão Bueno cuspindo bairrismos e bajulações gratuitas ao microfone num Grand Prix, soaria ilegítimo.

E é por isso - e por muito mais -, que meus domingos serão sempre de almoço em família.
Domingo de irmã chegando com filho pequeno no colo, de mãe mexendo a a panela de comida no fogão, e de sobrinhos indomáveis correndo pela casa, como se ali fosse o pátio da escola durante o recreio.
Os domingos felizes foram, são e serão, sempre, de macarronada, de frango assado com farofa, tutu de feijão e salada de legumes cozidos.
Eles terão Sílvio Santos na televisão:
- Quem quer dinheiro?

Domingos de futebol, cerveja espumosa transbordando pelos copos e escorrendo em rios que não desaguarão em lugar nenhum.
Domingos como os de ontem, com folhas de jornal previamente lidas, amassadas, levadas pelo vento no bojo das tardes abandonadas.
Este abandono com cara de ‘nunca’, semblante de ‘jamais’ e que é igual para todos nós.
Abandono que se repete semana após semana e tem o gosto requentado do jantar de ontem e anteontem.
Já sabemos que o próximo domingo virá vestido de um até breve e que, como este que agora, escorrerá entre nossos dedos, terá seus trejeitos decadentes de todo fim de festa.
E esta será a nossa única certeza:
O fim da festa, moça.
O fim de tudo, rapaz.
O viver verdadeiro, pleno e feliz, esse quase-milagre, só chegará amanhã, com o clareamento do dia, corre-corre dos transeuntes nos comércios e as buzinas dos automóveis nos ensurdecendo pelas ruas.
Segunda-feira não é mais o fino da fossa.
Segunda-feira é, desde sempre, o berço da ressurreição da raça humana.

Monday, October 2, 2017

Santo de casa não faz milagre


Romero Brito é um grande sucesso fora do Brasil. Sua obra está em aeroportos e paredes ilustres de todo o mundo. Em Miami, seus trabalhos acabaram se incorporando à paisagem quase caribenha do lugar. 
Seus traços estão em monumentos e praças públicas, laterais de ônibus e letreiros luminosos. Virou um patrimônio local, como os flamingos dos Everglades e as palmeiras das quentes alamedas floridianas.
No Brasil, o pernambucano é criticado com ferocidade. 
Seu trabalho é citado em piadas de mau gosto, especialmente na comunidade artística e nas rodas de intelectuais.
O argumento é que ele se repete e sua obra não instiga o pensamento, é irreflexivo.
Ao que tudo indica, ele não parece interessado no discurso artístico, nos problemas da contemporaneidade, na "problematização". Romero Brito é uma máquina de altíssima produção em franco funcionamento.
Alheio a tudo isto e aparentemente sem alimentar mágoas pelo descaso em seu próprio país, o artista se firmou no mercado internacional pelo que faz, e não pelo que diz fazer. 
Não sou crítico de arte, mas acho que comparar sua obra à de Andy Warhol, como já fizeram alguns, que por isso foram metralhados em praça pública, não me soa como uma heresia, como me querem fazer crer. A veia pop de ambos e a disponibilização da obra para quem não tem dinheiro não me deixam mentir. Que seja este o caso, então, ainda que os entendidos os tratem como designers de produtos e não como artistas plásticos.
Romero Britto não precisa de defensores.  E nao é isto o que faço aqui. 
Uso-o como exemplo de brasileiro que se deu bem fora do Brasil, mas que não conta com o apreço de sua própria gente. E ele não está sozinho.
Querem outro exemplo?
O escritor Paulo Coelho, o segundo autor que mais vende livros no mundo.
Odiá-lo é o caminho mais fácil para garantir o status intelectual de quem o critica nas rodinhas mais descoladas. 
Não meço o valor de sua obra. Não a conheço e careço de vocação crítica. O fato é que este carioca já vendeu 210 milhões de exemplares em todo o planeta, o que em muitos países o elevaria à condição de herói nacional.
Dizem que seu incrível sucesso é mais resultado de marketing, do que de uma boa pena. Falam de um conteúdo inócuo e oportunista, plantando falácias num cenário em que as pessoas buscam alternativas para a ausência de saídas epiritualizadas e até da omissão de Deus.
Por mais que ter sido empossado na cadeira de número 21 da Academia Brasileira de Letras soe como um prêmio de consolação, ele tem mais detratores do que fãs no Brasil.
Dizem que quem o lê jamais leria Schopenhauer ou Sartre. É natural. O Brasil anda mais para Wesley Safadão do que para Tom Jobim. E estes são os nossos tempos.
Publicado em  mais de 150 países e traduzido para 66 línguas, o ex-parceiro de Raul Seixas em tantas canções não parece preocupado com isso. E tem absoluta razão.
Outro caso recente de brasileiro de sucesso internacional que não é unanimidade em casa é o do jogador Neymar Jr. É incrível o tanto que ele é criticado. 
Trata-se de um jovem (apenas 25 anos) que venceu quase tudo o que disputou, tendo inclusive ajudado o país a conquistar um inédito ouro olímpico. 
O jogador do PSG tem contra si a vida de farras fora dos gramados, a fama de baladeiro, mas dentro das quatro linhas é de uma competência e criatividade únicas.  Não é à toa que é o jogador mais caro do mundo. Eu não gostaria que ele namorasse uma filha minha, é verdade, mas vejo nele um craque que ainda tem muito por onde crescer. 
O gostar ou não gostar de uma personalidade é direito de cada um. Isso eu consigo compreender.
O que não é bacana é o fato de se olhar com uma lente mais severa para os nossos, como se o sucesso internacional fosse um benefício reservado apenas aos outros.
Numa absurda inversão de valores, muitos brasileiros dão ao trio acima citado o tratamento que deveriam dar à grande maioria dos políticos em atividade no país.

Monday, September 25, 2017

Ele não é um messias


Estou assustado com o ódio que tomou conta do Brasil e dos brasileiros.
A convivência entre as partes, antes pacífica, agora está fraturada e destrói sólidas amizades construídas ao longo dos anos. Eu mesmo fui vítima da intolerância reinante, perdendo o benefício do convívio com pessoas que sempre andaram de mãos dadas comigo e desfrutaram do meu gostar.
Sou tolerante e respeito quem não tem o pensamento alinhado com o meu, mas confesso que fico absurdado quando vejo amigos próximos acendendo velas para Jair Messias Bolsonaro, como se ele fosse um salvador da pátria. 
Respeito, claro. Mas discordo, veemente.
Estes meus amigos gostam do discurso bravateiro e o apontam como a panaceia para os males tupiniquins.
Esquecem-se do dia em que o país apostou as fichas em Fernando Collor de Mello, um homem que se auto-intitulava 'o caçador de marajás'.
Collor não apenas não cumpriu o prometido, como ainda se tornou um dos presidentes mais corruptos da história. Tão corrupto, que foi impichado, escorçado, expulso da presidência sob o coro inconformado dos caras-pintadas.
Bolsonaro não caçará ou achará nada, além de gasolina aditivada para jogar na fogueira do ódio.
Não achará a solução para o problema da corrupção.
Não estancará a sangria da violência.
Não curará nossas mazelas econômicas, pois não tem lastro para tanto.
Ele não será salvador de nada.
N-a-d-a! 
Este ex-militar age no inconsciente coletivo como a ponta de um dedo bolinando a raiz escancarada do dente que dói. E nisto ele sabe o que faz.
Consegue até que alguns sintam saudade da ditadura, que foi um retrocesso do qual ainda não nos recuperamos completamente.
Ele percebeu que o brasileiro está cansado dos desmandos e maracutaias da classe política. E que o cidadão já não aguenta sofrer com tanta sacanagem.
O deputado tem consciência de que o crescimento de seus ideais está intimamente ligado à decepção e ao medo dos cidadãos.
Mensalões, petrolões, operações lava jato, satiagraha e tantas (tantas!) outras, que ardem na alma coletiva e tem efeito de gás paralisante.
Decepção com a classe política, cuja carne podre fede escancarada nos noticiários da televisão.
Decepção com as instituições.
Escárnio. 
Nojo de tudo e de todos.
E o medo da chapa quente, que é circular sem correr riscos de violência ou morte pelas ruas desprotegidas do país.
Bolsonaro sacou que a decepção com figuras que outrora foram menestréis da esperança de melhores dias, tiveram seus nomes envolvidos em curriolas. Transformaram-se em adubo para soluções extremas, drásticas, e que certamente se mostrarão trágicas.
Como um besouro do mau agouro, ele fica ali, zumbizando no ouvido dos incautos, alardeando que tem o poder de acabar com os bandidos e a bandidagem. 
Fala babando, com a raiva própria dos raivosos, reverberando na vontade e cansaço de uma crescente parte do eleitorado, como se ele fosse uma passagem só de ida para o paraíso. 
Diz que vai armar os cidadãos, para que estes respondam a bala, olho por olho, dente por dente, aos ataques da bandidagem.
Desrespeitador, desanca mulheres, ofende colegas de plenário, tendo dito em uma ocasião que uma deputada era "tão feia", que não merecia ser estuprada por ele próprio. 
Acha que “mulher deve ganhar salário menor porque engravida”. E justifica alegando que, “quando ela voltar [da licença-maternidade], vai ter mais um mês de férias, ou seja, trabalhou cinco meses em um ano."
Defende o uso da tortura e diz que o maior erro da ditadura foi ter 'torturado e não matado.'
Disse para a cantora Preta Gil que ele não corria risco de seus filhos se relacionarem com uma mulher negra ou com homossexuais, porque eles foram muito bem educados.
E ainda ameaçou bater em gays, conversando com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso:
 “Não vou combater nem discriminar, mas, se eu vir dois homens se beijando na rua, vou bater.” 
Acha que o general Augusto Pinochet , um dos maiores carniceiros da história da humanidade, pegou leve com aqueles que atreveram a discordar da ditadura chilena:
“Pinochet devia ter matado mais gente”, disse.
O pré-candidato segue incólume nos noticiários, subindo nas pesquisas, destilando ódio e preconceito, prometendo mudar o Brasil na base da paulada sem oferecer alternativas reais, além das corriqueiras bravatas e ameaças que domina tão bem.
Messias?
Só no nome.
Jair Bolsonaro não passa de um Sassá Mutema sem poesia. 
Um candidato truculento e sem o carisma da personagem de Lima Duarte no folhetim. 
A única diferença é que a nossa novela é real e parecemos muito distantes de um final feliz.