Monday, April 17, 2017

Porque eu também sou mãe


Eu entendo a sua dor porque também sou mãe. 
Assim como você, eu sou aquela que esperou com ansiedade a chegada deste filho que encheu a casa de felicidade quando nasceu.
Se ele foi o primeiro, se foi o único, pouco importa.
Para uma mãe todos os filhos são únicos, todos são o primeiro, todos são iguais no amor que ela sente desde o momento em que nasce.
Uma mãe começa a amar o filho antes mesmo de sua chegada, naquilo que o guarda dentro da barriga e por ele espera.
E eu o guardei e desejei que nada lhe faltasse, que nada (nunca!) lhe doesse, que nada lhe afligisse desde que respirou fora de mim pela primeira vez.
E eu o amamentei até que ele não precisasse mais do meu leite.
Estive com ele nas noites de febre, trocava suas fraldas, saciava fome e sede e o acompanhei enquanto ele crescia.
Caía a noite e eu ficava olhando para aquele menino bonito, a face inocente descansando de nadas, e desejando que ele tivesse um sono tranquilo, cheio de sonhos leves.
Eu implorava para que ventos ligeiros levassem para longe dali os eventuais pesadelos.
Vi quando ele deu os primeiros passos e quando perdeu o primeiro dentinho.
Ainda guardo na memória cada pedacinho dele, a imagem no porta-retratos, o sorriso ingênuo, o olhar de ave, o cabelinho de nuvem.
Eu estive sempre com o meu menino.  (E gostaria de ter estado mais, mesmo depois que ele cresceu.)
Eu quis para ele futuros brilhantes, tão maiores e melhores que o meu.
Quis que ele salvasse vidas como um médico, que educasse o mundo como um professor, que fosse piloto de avião, artista ou atleta profissional.
Que ele fosse o que escolhesse ser. Acima de tudo, que ele fosse feliz.
Portanto, eu sou aquela que não sabe onde errou e que preferia que tudo fosse de outra maneira.
Eu sou a mãe daquele menino que se tornou rapaz e se perdeu de mim.
Aquele menino que foi adotado pelo crime e que hoje chama a violência de senhora.
E é por isto que entendo a sua dor de mãe, que teve a trajetória do seu filho interrompida pelo meu.
Sou a mãe do pivete que lhe assalta fumado de crack e que coloca a sua história de cidadão a um clique de revólver, a sua vida por um triz.
Sou a mãe do homem-bomba que entra num mercado e leva dezenas de inocentes com ele, sabe lá Alá para onde.
Sou a mãe do sequestrador que lhe priva dos seus, daquele que pede resgate e que talvez nem devolva o que não lhe pertence, o que nunca lhe pertenceu.
Eu sou a mãe de Mark Chapman, aquele jovem que matou John Lennon e roubou do mundo a luminosidade de novas canções.
Apareço como genitora na certidão de nascimento de Charles Manson.
Osama Bin Laden me chama de mãe.
Meu DNA está em Hitler, em Franco, em Gaddafi e Sadam Hussein.
Está nos policiais dos grupos de extermínio da Baixada Fluminense e nos estropiados do Talibã.
Está nas artérias de George Bush, nos cabelos de Manuel Noriega e na arcada dentária de outro tirano qualquer.
Meu filho é aquele que entra no cinema vestido de Batman e abre fogo contra inocentes, filhos de outras mulheres como você.
Eu sou a mãe de todos estes meninos enlouquecidos que se armam até os dentes e promovem carnificinas nos Colombines e Realengos desta vida.
Portanto, pode chorar nos meus ombros que eu entendo a sua dor, minha senhora. Entendo, porque também sou mãe.
E porque toda vez que um filho meu mata o seu, eu morro um pouquinho junto com os dois.


* Foto de Osama Bin Laden na infância.

Thursday, March 30, 2017

Pequenas memórias


Eu, que hoje entendo muito pouco de quase nada, naquele tempo entendia menos ainda.
Usava calças-curtas e cantava o hino nacional na escola, todos os dias, antes do começo das aulas.
Eu era um menino católico – como quase todos os outros – que emprestava a voz a um Padre Nosso capenga.
Não, eu não sabia melhor. Eu não sabia.
Como um mestre-sala mirim, desfilava com uma legião de soldadinhos de carne e osso ao som de marchas militares. Era sete de setembro, feriado nacional.
Às vezes um tanque de guerra abria o caminho, e aquilo era imponente e intimidador.
No palanque, sorriam homens com estrelas nos ombros, roupas engomadas e sapatos lustrosos.
No rádio de ondas curtas, Dom e Ravel cantavam que aquele era o lugar dos patriotas, dos amantes do país.

“Eu te amo meu Brasil, eu te amo
Meu coração é verde, amarelo, branco e azul anil
eu te amo, meu Brasil, eu te amo
ninguém segura a juventude do Brasil”.

A infância fedia, inocente.
Meninos e meninas não tinham consciência do que se passava. No interior do interior do Brasil, éramos pequenos demais para tomar conhecimento de que os descontentes desapareciam em úmidos porões.
Eu não sabia que o País do Futuro, naquele presente, não passava de mais uma republiqueta das bananas da América Latina.
Eu era um passarinho engaiolado e não o sentia. Faço parte da geração que foi uma das mais sacrificadas desde que Pero Vaz de Caminha escreveu uma carta ao rei de Portugal.
Formamos a geração perdida, a que descobriu o caminho da emigração e despachou brasileirinhos e brasileirinhas para os quatro cantos do mundo.
Estamos instalados entre os aborígenes da Austrália, os malditos chicanos e os brasiguaios de algum lugar tão miserável quanto o nosso.
Somos os subalternos, os estafetas, os contínuos.
Somos os decasseguis, os brasucas, os expatriados.
Somos aqueles que batem continência, os que abrem as portas dos carros e dos hotéis; os que guardam o veículo e a casa alheia; os que se conformam com a sorte menor.
Somos os que lavam os pratos; os que limpam o chão.
Somos os que higienizam os cadáveres nos necrotérios no Harlem e no Bronx.
Os que passeiam os cães das madames no Hyde Park.
Os que servem à mesa nos bistrôs de Saint Germain.
Os que cozinham.
Os que ralam.
Exceções?
É claro que as há, como em toda regra criada pelo homem-lobo-do-homem.
Mas não somos páreo para os de antes, nem para os de depois da década de 1960.
Nós somos os de durante.
Somos os zés e marias-ninguém deste gigante fincado nas Américas.
No grande esquema das coisas, somos os ‘desinfluentes’, quase sempre fedendo a suor e picotando o cartão de ponto em algum lugar do mundo.

Sunday, March 26, 2017

Desassossego na bagagem



(Para Jorge Pimenta, que rabisca fotografias com seu olho lírico)


O que trarei na bagagem desta minha viagem?
Trarei as luzes derramadas sobre a ribeira?
Trarei a ribeira do D’Ouro e suas águas a um passo da foz?
Trarei barcos carregado de pipas? 
Uma janela da torre dos Clérigos e a proteção do anjo apinhado de pombas no topo do hospital Santo Antônio?
Trarei uma lua cheia? 
Trarei estrelas nortenhas? 
Azulejos?
Trarei as vielas estreitas desta cidade, como aquelas transportadas em nuvens para as vilas portuguesas da Minas Gerais colonial?
Sim, porque existe muito do lugar de onde venho neste lugar que visito pela primeira vez.
Existe um bairrismo, um orgulho ingênuo, um sotaque distinto e uma quase doçura na voz.
Existem ladeiras que sobem e descem, mercados permeados por um burburinho e vozerio que ecoam de dentro dos cafés e tascas espalhados por todos os cantos, dentro de mim.
É manhã na cidade do Porto e, no que chego, chove turvando a visão diante de uma paisagem que nunca vi.
Lanço o olhar-turista sobre pessoas e coisas com a sede dos que tem sede, com a fome dos que tem fome.
Chego e sou bem acolhido já à entrada, sentindo-me imediatamente em casa.
Eu, que caminho por essas ruas como se fossem minhas.
Eu, que sou afeito a intuir e a intuir somente.
Eu, que só sei sentir, intuo que trarei desta cidade, quando retornar ao lugar que chamo casa, as cenas épicas dos painéis da estação de São Bento.
Trarei a conversa intimista do motorista do táxi.
Trarei tripas à moda do Porto, alheiras de Mirandela, tremoços e sarabulhos.
Trarei romãs e dióspiros.
Trarei o gosto picante do molho da francesinha degustada numa transversal da rua onde as putas fazem ponto quando a noite cai sobre a cidade.
Trarei poemas de Eugénio de Andrade e textos de Valter Hugo Mãe.
Trarei um solo da guitarra de Rui Veloso e uma pedaço de toucinho do céu, fatiado das páginas do menu do Dom Tonho.
Trarei os muros e paredes pichados, espirrados da fúria de um povo que não se dobra ou aceita as injustiças que ainda persistem.
Trarei o doce-azedo das uvas que espremeram para fazer o vinho que embriagou e irmanou todos nós, durante a estada.
O calor dos abraços que entreguei e recebi, mais que em dobro.
Trarei na mala o luto das mulheres que trafegam pelas ruas, como se ainda vivêssemos num século distante.
Trarei um olhar de adeus diante do mar.
Trarei tradição.
Trarei o peso da história e um pedaço dela, impregnado, essa tatuagem nas retinas.
Trarei uma travessia à pé da ponte Dom Luís I.
Trarei as canções de um concerto que reverbera, ainda, como se estivessem frescas como as laranjas dos pomares que adornam o norte de Portugal.
Trarei um livro retirado do acervo da livraria Lello, que é uma espécie de relicário das palavras, um dos lugares mais bonitos que meus olhos já viram.
E farei o caminho de volta como quem atravessa um abismo.
Porque o oceano Atlântico é um abismo que separa os dois continentes e impede um abraço.
E eu cumprirei duas vezes este percurso numa agonizante jornada.
Nas despedidas, ficará o refrão de um fado.
No coração, o desassossego dos que deixam para trás um pedaço grande da alma.
Ainda assim, ficará a sensação de que levo muito mais do que deixo nesta cidade, neste país.


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Thursday, March 23, 2017

PAPOULAS DE KANDAHAR - Roteiro de lançamento


Roteiro de lançamento do livro
Espero vê-lo nesta minha caminhada 
de divulgação do livro.
Clique na foto para ver a lista de cidades 
que nos receberão durante 2017.
Compartilhe em suas redes sociais, caso possa.

Monday, March 20, 2017

A caixa lilás (II)


(Segunda parte)

Ela perambula pela memória do bisavô mascate, um homem de gestos doces e que lhe emprestou os lamentos árabes com que demarcaria o terreno, riscaria o chão. 
Seu coração foi futuro do pretérito imperfeito, mas ela não percebeu. 
Desvendou o mistério de transformar o inverno da vida em verão. Até que, um dia, decidiu que o inverno continuaria sendo inverno, apagando o sol com a ponta dos dedos, como quem apaga uma vela de sete dias.
E aí decidiu pintar a caixa de segredos. Escolheu a cor lilás, que é a cor com que forram o fundo dos caixões onde os humanos guardam os seus mortos. 
E dentro desta caixa foi colocando todos aqueles pedacinhos seus.
Guardou o irmão que escreve poemas e a mãe que tece cachecóis.
Colocou-os, em um cantinho, junto com o pai de alma cigana e coração burocrático.
Pôs junto deles o livro com o nome da indiazinha a quem daria vida, fazendo sorrir Darcy Ribeiro.
Na sequência, foi colocando, pouco a pouco, sentimentos e coisas que, distraída, recolheria pelo chão:
Um pingente de coração com a flecha de um símbolo do zodíaco.
A fotografia de um pedaço de pedra onde o mar virou sertão.
Abraços em praças públicas e beijos nos quartos da casa de João.
Amontoou gozos, frenesis de música e poesia, delírios arrancados com fórceps.
Guardou contos de Eça, romances de Mia Couto e poemas perfumados de Drummond.
Empilhou tangos cansados, um trevo de quatro folhas e um pequeno mapa do medo. 
Emendou pedaços de cantos do mundo com o sorriso de Mick Jaeger.
Incendiou flamboyants.
Acondicionou remédios que talvez curassem males menores, mas que se recusou a tomar. 
Pegou um escapulário incapaz de um milagre, livros que jamais vai ler e canções que não irá escutar.
Roupas que nunca serviram, cuidados que rejeita e rejeitará, flores que não dão enfeite e duas papoulas de Kandahar.
Não achou os diamantes de mentirinha e a miniatura de uma Mercedes Benz. 
Vez por outra, abre a caixa e fica olhando os objetos espalhados entre os pontos de interrogação que inventou.
Deste rosário de inutilidades recende o perfume masculino que insiste em não evaporar.
Sempre que ela tem que mexer nesta caixa sente um arrepio de medo. Muito medo.
Medo, principalmente, de ter trocado os pés pelas mãos.
Ela sabe que dentro deste baú adormecem finais felizes em Casablanca, sabonetes embrulhados em papel de seda, a abolição dos mal-entendidos deste mundo e dois passos de um bolero inacabado.
E ela começa a dançar sozinha pela sala do apartamento de décimo terceiro andar.
Ela dança. Ela dança...
Dá dois passinhos para lá.
E mais dois passinhos para cá.





Friday, March 17, 2017

A caixa lilás



(I Parte)

Ela começou a construir a caixa de segredos ainda menina.
Enfiada em um vestido de gesso, passava dias a fio vendo as nuvens lamberem o Ibituruna, no que atravessavam a janela da esquerda para a direita, como se fossem ovelhas desnorteadas.
Não imaginou que durasse tanto, tanta dor.
Não pensou que durasse nada, ela própria.
Fez alguns pactos. Criou asas. Arrefeceu.
Ornamentou o baú onde guardaria suas calmas e turbilhões com dois sóis sustenidos, um aboio chorado às duas horas da tarde e penas da asa de uma graúna,
Cultivou Hiroshimas e Xangri-las de bolso, naquilo que crescia.
                                                                (Não abriria mão delas)


Fez tsunamis em copos d'água,  bebeu tornados com alka seltzer e despenteou os cabelos com vendavais.

Pelo tecido da pele, por cada poro do corpo, deixou entrar Dolores, Cartola e Jobim.
Mas não foi fácil.
Adormecia na Faixa de Gaza e acordava em Pasárgada, onde era a nobreza de um castelo sem rei.
Era a marquesa de Tordesilhas, Lisboa e Pombal.
Nas noites de insônia atravessava descalça os braseiros das fogueiras de São João que ia criando. Sangravam-lhe os pés e caminhar pela vida sempre lhe trouxe dor.
Para não ter que tocar o chão, aprenderia a voar através da dança.
É por isto que, todas as vezes que doem-lhe a alma e os pés, ela coloca o vestido branco e começa a girar.
Ela voa.
Gira num tablado flamenco, em Málaga.
Flutua numa valsa, em Versailles.
Rodopia numa rua de Havana diante dos olhos de um homem sem rosto, charuto apagado em uma das mãos, o copo de rum pela metade, na outra.
Na cintura dela repousa a mão de um jovem negro.
Nos olhos dele, ciúme e contemplação.
Trata-se de uma imagem recorrente, uma espécie de alucinação.
Ela a tudo vê, mas se fecha em copas, e bebe o silêncio em goles miúdos.
Degusta o silêncio, esse veneno que vai matando aos pouquinhos, como se fosse vinho feito a partir de uma uva colhida numa parreira de Chernobyl.


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